Um contraponto a propostas concretas.

Paulo Roberto Curvelo Lopes
Professor da Univ. Fed. de Juiz de Fora-MG

O Cepat Informa – nº 46 – apresenta uma série de alternativas e possibilidades de ação, talvez atendendo solicitação da carta publicada na página 37 deste mesmo número. Ele fala da economia do Dom e da Reciprocidade, da colaboração solidária através das Redes, da Ética do sujeito responsável, da proposta para uma sociedade mais justa (a longo prazo), das experiências do banco do povo e do cooperativismo. Todas essas alternativas estão centradas no princípio da solidariedade no trato de questões econômicas e sociais.

Considero importante esta preocupação em superar uma visão negativista da dinâmica social e romper com uma perspectiva nihilista do processo histórico. Entretanto, não posso deixar de fazer um contraponto a todas essas propostas. Se, por um lado, não podemos cair num determinismo imobilizador, por outro lado, não podemos ficar num voluntarismo irresponsável. Aliás, a própria disposição dos artigos neste número do Cepat Informa, pode ter uma interpretação nesta direção, pois, como não considerar todo aquele quadro de desigualdades gritantes, sintetizado numa carta de vinhos em restaurante de Curitiba com preços de até oitocentos reais a garrafa?

É preciso entender que a sociedade não funciona como uma vitrine onde são expostas diferentes alternativas e cada um compra a que mais lhe interessar. As opções feitas em sociedade, mesmo que definidas por poucos, envolvem a todos, em diferentes graus, níveis e intensidade. Para que possa existir consumidores para uma garrafa de vinho de oitocentos reais é preciso que haja um processo de dominação e exploração consolidado. Não é possível existir esse fenômeno e ao mesmo tempo existir espíritos lúcidos que atuam em rede de solidariedade. Tratam-se de coisas incompatíveis e inconciliáveis.

Neste sentido, não entendo a proposta de redes – a colaboração solidária - como uma alternativa pós-capitalista à globalização atual. Como a proposta expressa, as redes estão trabalhando com produção e consumo numa sociedade capitalista, achando ser possível a convivência simultânea da produção e consumo capitalista e a solidária (pós capitalista).

É bem verdade que os burgos conviveram no modo de produção feudal e continham um potencial de transformação. Mas os burgos não foram estratégicos no advento do capitalismo. Foram as alterações nas relações de propriedade e nas relações de trabalho, conforme analisa Hobsbawn, com os enclousers e novas tecnologias, entre outros, que introduziram uma nova qualidade no mundo feudal.

As redes de solidariedade não introduzem uma nova qualidade ao capitalismo, pois não são centrais em sua dinâmica. Elas têm um valor na formação de uma nova cultura, mas não são estratégicas na constituição de uma sociedade pós capitalista. Poderão se constituir numa força de transformação? É sempre uma possibilidade, mas nunca a partir delas mesmas e, por isso, não são estratégicas. Como táticas, elas produzem uma nova cultura, podem instituir experiências diferenciadas, novas sociabilidades ao transformar a competitividade em solidariedade, mas ainda na esfera dos valores. Assim afirmam valores, mas não alteram a dinâmica do capital. No máximo, dependendo de sua força, estimulam o capitalismo a buscar formas de absorvê-las. Por exemplo, nos inícios dos anos 80, os demitidos da Fiat, em Betim - MG, realizaram uma experiência de produção autogestionária e solidária. Formaram várias oficinas de produção e algumas de consumo, estas procurando articular o campo com a cidade. Contaram com a cooperação de entidades católicas do exterior, que investiram somas razoáveis de recursos financeiros para início das atividades. Em sua maioria, as oficinas que conseguiram se sustentar foram aquelas que orientaram sua produção para atender as necessidades da Fiat. Produziam pequenas peças, numa forma de terceirização precoce.

Assim, um primeiro aspecto a registrar é que não vejo esta proposta de rede como estratégico na superação do capitalismo. Com isso, não quero dizer que a experiência proposta não tenha valor. Ao contrário, parece-me bastante interessante, principalmente, na direção sócio-educativa. E creio que é nesta direção que ela deveria ser aprofundada e não na direção de estratégia.

Um segundo aspecto a considerar diz respeito à luta política. Desde os gregos, as sociedades ainda não encontraram outra forma de se organizar que não seja a negociação na esfera pública. E desde os gregos que esta esfera é, de diferentes formas, privatizada, privilégio de alguns poucos. O debate, a denúncia, o protesto, a oposição, a vigilância são elementos fundamentais na luta pela reconstituição e recuperação da esfera pública. Há necessidade de atuar no espaço público e não deixá-lo para os "aventureiros", conforme já lembrava D. João a D. Pedro. Temos que lutar no interior das fábricas, nas ruas, nas instituições, no aparelho do Estado. Temos que denunciar a corrupção, os desmandos, os clientelismo, os nepotismos, as desigualdades, as injustiças. Temos que discutir os problemas nacionais e internacionais, os desmandos dos americanos, a subordinação das elites brasileiras, a exploração capitalista. Temos que ficar de muito blá, blá, blá pois é isso que incomoda, que acaba com as unanimidades, que coloca percalços na maré da destruição e do caos. Fazer política é preciso! E fazer política não é querer construir um caminho próprio nem apenas formular propostas ao rei. Fazer política é, também, subverter os caminhos já traçados, é, também, denunciar que o rei está nu! É, também, debater sem chegar a nenhum resultado. É, também, discutir sem objetividade. É, também, contrariar os falsos acordos, etc etc.

Não podemos deixar de fazer política e estimular para que mais pessoas façam política. Quando estamos acreditando em propostas concretas, corremos o risco de transformá-las de meios em fins. O fim, como já sabiam os gregos, é a vida na polis. É a política. E esta é múltipla, com várias dimensões e direções. Não se resume numa oficina de produção ou de consumo. Ela é por natureza cosmopolita e universal. Esta dimensão do universal precisa estar presente, para que não haja a substituição da política por um propositivismo ingênuo, para quem assume, mas cínico para quem o estimula. Não podemos perder de vista que uma das grandes cartadas do neoliberalismo é justamente sufocar a dimensão política, juntamente com todos os mecanismos de sua realização, acumulados no processo civilizatório.

Por fim, uma terceira observação refere-se à questão do protagonismo popular. A ênfase em formular propostas concretas de ação pode correr o risco de eclipsar um processo de discussão e debate, reforçando o poder de alguns. São os iluminados que têm as alternativas? Ou elas surgem de um processo amplo de discussão e debate?

Quando vemos o que está acontecendo com toda a América Latina que se transformou na grande fonte de recursos financeiros, não mais matéria prima, para resolver os problemas do déficit americano, monitorado pelo FMI, ficamos, de fato, descrentes da possibilidade de protagonismo. Como os setores populares podem ser protagonistas se nem mesmo as elites nacionais conseguem? Como a oposição pode ser protagonista se nem o governo brasileiro é? Cada vez torna-se mais difícil a questão do protagonismo. Isso pode nos levar a duas atitudes. Uma é achar que não é possível ser protagonista na vida em sociedade e abrir mão desta perspectiva. A segunda atitude é achar que basta fazer alguma coisa que já estamos sendo protagonistas. Esta segunda é muito comum na formação cristã. "Se não podemos mudar o mundo, vamos ao menos mudar a nós mesmos". Esta parece ser a frase que sintetiza esta atitude. Mudar as pequenas coisas para ver se consegue mudar as grandes, é uma outra nuance desta atitude. Ou a parte nos contenta, ou o todo é o somatório das partes, de tal forma que alterando a parte provocamos alteração no todo. Trata-se de atitudes que, igualmente, abrem mão do protagonismo.

Como redimensionar o protagonismo popular? Trata-se de uma pergunta que não tem resposta única e imediata, porque exige acúmulo de práticas e de formulações teóricas. Neste sentido, é que as propostas alternativas não podem correr o risco de se sentirem, e se colocarem, como a resposta a esta questão. A resposta é mais complexa e múltipla do que idéias geniais que possamos formular. Vivemos um momento histórico em que a diversidade e a pluralidade contrastam com a centralização do protagonismo nas mãos de poucos. Trata-se de um paradoxo da contemporaneidade. Como superar isso é um dos desafios que estão postos, principalmente se considerarmos na perspectiva da luta popular e democrática.

Estas são algumas observações que este número do Cepat Informa me suscitaram. Creio que ele demanda uma exegese para relacionar os dados que apresenta na primeira e última partes com as propostas encaminhadas. Acho mesmo que o editorial poderia ter chamado a atenção para este aspecto. Fica o registro!