"Recolocando a polêmica em torno da colaboração solidária"Paulo Roberto Curvelo Lopes
Rio de Janeiro, março de 1999.O texto de Euclides Mance, no CEPAT INFORMA n. 48, amplia a discussão sobre a "gestação de uma alternativa histórica para os excluídos". E é em torno desta afirmação que gostaria de continuar a polêmica que iniciei no numero anterior. Minha argumentação básica é que a gestação de alguma alternativa histórica dos excluídos tem como pré-ocupação (a palavra vai separada para dar a idéia exata do que estou falando: ocupação anterior a ocupação) o POLÍTICO ORGANIZATIVO.
Com isso estou querendo dizer, ao contrário de Euclides, que a colaboração solidária pode ser (não necessariamente é ou não é, deve ou não deve) uma tática econômica ou cultural para travar uma ação politico-organizativa estratégica para a transformação social. Há, portanto, pontos de análise diferenciados. Assim, cm vez de buscar consensos genéricos, talvez seja interessante fundamentar as divergências em busca de consensos substantivos. Neste caso, creio oportuno refletir sobre três elementos: político-organizativo, estratégia e solidariedade. Evidentemente, aqui, vou apenas elencar algumas breves idéias sobre estes três elementos.
Por político-organizativo estou entendendo a gestação de uni projeto de um determinado grupo social. A palavra projeto assumiu uma dimensão técnico-operacional que não é aquela a que estou me referindo. O pensamento cristão utiliza esta palavra no sentido que quero referir: projeto como o vir a ser que se realiza aqui e agora, justamente porque é um vir a ser. A burguesia, no período feudal, foi gestando um projeto. Hoje, ela quer perpetuar este projeto. E bom esclarecer que não estou falando de um projeto concebido e/ou gerido por um grupo de iluminados ou por um deus todo poderoso. Mas também não estou falando que não possa ter aqueles que explicitam os contornos e entornos deste projeto. E aí, concordo com Euclides, que esta explicitação pode ser feita com o apoio da reflexão teórica.
O projeto está relacionado à práticas concretas e a base material é fundamental para sua gestação. Entretanto, não se trata de uni mero atendimento às necessidades materiais. E, tia verdade, o atendimento a novas necessidades, materiais e humanas, para as quais os grupos sociais vislumbram novas possibilidades. Um novo projeto só é gestado quando os grupos sociais identificam novas possibilidades. Desta forma, os grupos sociais pensam suas relações de produção (material e humana)na articulação com novas forças produtivas que emergem neste processo. Esta é a dimensão política a que me refiro e o que vai sendo definido neste processo é a dimensão organizativa. Daí falar no político organizativo como centralidade da gestação de uma alternativa histórica dos excluídos.
Ampliando a idéia de projeto se coloca a questão da estratégia. Cassab (1) discute estratégia recorrendo a dois elementos básicos: a intencionalidade e a dimensão do mediato e imediato tia vida dos sujeitos e na coletividade. Estratégia liga-se à idéia de ação, refere-se à decisão sobre um percurso a ser seguido em urna ação racional, orientada por objetivos que estão esboçados em um projeto que se realiza na mediaticidade. Supõe ainda, segundo Cassab, unia certa reflexividade e cálculo que orientam as decisões que os sujeitos, individuais ou coletivos, tomam no curso de suas ações. Desse modo, a estratégia supõe um pesar e medir as condições e o grau de sua conveniência em relação aos objetivos desejados.
Enquanto estratégia de inclusão é possível se pensar na colaboração solidária. Mas enquanto estratégia de ruptura da desordem existente, corno alternativa histórica dos excluídos fica difícil de aceitar. Qual intencionalidade e mediaticidade que esta colaboração apresenta? Se é possível articular elementos teóricos em tomo dela, a teoria tem que responder a essa questão. Do contrário, estamos no campo da retórica.
Por fim, um rápido aceno à questão da solidariedade. A sociedade capitalista não conseguiu eliminar o valor da solidariedade, apesar de toda ênfase tia competição. Os liberais chegaram a afirmar que a competição é que pode tornar as pessoas solidárias, numa tentativa de subverter esse valor, mas logo foram desmascarados pela dura realidade.
Mas, senão conseguiu eliminar a solidariedade, o capitalismo possibilitou o surgimento de diferentes práticas e visões fundamentadas neste valor. Menciono, aqui, três grandes formas de entender a solidariedade que estão presentes em nossa sociedade: a tradição cristã, a social democrata do pós guerra e a perspectiva socialista.
O pensamento cristão defendeu, durante algum tempo de forma hegemônica, a solidariedade como forma de ajudar as pessoas a carregarem seu fardo. A social democracia pós guerra defendeu a solidariedade enquanto principio do Estado e formulou o Estado de Bem Estar Social. O pensamento socialista defendeu a solidariedade de classe, que constituiu a base do processo político organizativo do proletariado. Assim, a solidariedade pode ser vista de diferentes ângulos.
É verdade que estes três ângulos de solidariedade, quer em sua linha básica como em seus viezes e combinações, não resistiram aos novos desafios da contemporaneidade. O fardo ficou muito pesado, o Estado acabou com o bem estar e o proletariado não conseguiu se constituir enquanto força política hegemônica. O que deveríamos buscar é uma síntese (dialética) das potencialidades que estas três experiências de solidariedade apresentaram, para que possamos, substantivamente, identificar as possibilidades de experimentar novas práticas solidárias.
É verdade também que, como diz Euclides, a base material é condição essencial para que a solidariedade se constitua. Neste sentido, o pensar a organização da produção, naquilo que a prática dos grupos vem apresentando (e não pensá-la a partir de uma idéia genial de um iluminado), tem um aspecto positivo. E desta forma que eu, anteriormente, reconheci um grande valor nas reflexões que estão sendo feitas neste campo, não só pelo Euclides como por tantos outros. Entretanto, elas são estratégias de sobrevivência, tentativas de inclusão, busca de agir no imediato. Não têm a força para significar unia síntese das três experiências de solidariedade, que parece ser a necessidade e exigência do próximo milênio. Esta síntese pode, talvez, incluir a colaboração solidária, mas vai muito além dela e, certamente, irá superá-la. Desta forma, a contribuição efetiva que poderíamos dar a este esforço de sobrevivência dos grupos e indivíduos e entendê-lo dentro de seus exatos limites. Assim, poderíamos, inclusive, reconhecer nossos limites enquanto intelectuais orgânicos dos setores oprimidos e explorados de nossa sociedade".
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Notas
1. CASSAB, Maria Aparecida Tardin. Jovens pobres e o futuro: a construção da subjetividade na instabilidade e incerteza. Tese de Doutorado. Departarnento de Psicologia. PUC/RJ. 1998.