A FAVOR DA CRÍTICA E DA AUTOCRÍTICAPaulo Roberto Curvelo Lopes
Professor da Univ. Fed. de Juiz de Fora-MGNo CEPAT Informa n.47, escrevi uma nota, que chamei de "um contraponto a propostas concretas", fazendo observações sobre as matérias do CEPAT Informa n. 46, que apresentava uma série de alternativas e possibilidades de ação. Entre estas estava a proposta de Redes a colaboração solidária. Minha intenção era apresentar questionamentos sobre propostas concretas de ação, pois há uma tendência, muito comum em certos grupos sociais, em querer fazer alguma coisa e se contentar com a primeira coisa que encontra pela frente, quase como modismo, sem enfrentar um exercício de crítica e autocrítica.
O autor da proposta de Redes resolveu responder aos questionamentos que eu havia formulado. Escreveu um artigo fundamentando ainda mais sua proposta. Isso me animou a escrever uma resposta. Agora, recebo um novo artigo desta mesma pessoa em cima de minha última resposta. Nesta, eu dizia que era preciso marcar as diferenças para que pudéssemos avançar no debate. Parece que o autor entendeu que tratava-se de diferenças pessoais e resolveu mostrar sua autoridade teórica para desqualificar e deturpar meu texto. Corno não acredito neste tipo de debate, onde a desqualificação do outro é a forma de se auto qualificar, não vou enveredar por este caminho, ainda mais porque estou efetivamente interessado em construir algo diferente do que o capitalismo em sua fase neoliberal tem a nos oferecer, em construir redes dinâmicas de diálogo entre diferentes experiências e variados interlocutores.
Assim, vamos voltar à tese proposta pelo autor de que "uma revolução antagônica ao capitalismo possa ocorrer sob uma estratégia de rede em que o econômico e o cultural não sejam subalternos ao político..." E mais, de que as experiências solidárias dos grupos populares poderiam vir a assumir essa dimensão de rede.
Como podemos observar, saímos da preocupação inicial de propostas de ação para discussão de estratégia revolucionária. Mas, curiosamente, reduzimos ainda mais as propostas de ação. Ao considerar que redes são estratégias revolucionárias, capazes de serem antagônicas ao capitalismo, reduzimos a nada as redes e a revolução.
É certo que a proposta leninista, vitoriosa no início do século, não devemos nos esquecer, encontra-se defasada em relação às novas contradições do capitalismo. Mas isso não pode ser pretexto para que se substitua a revolução pela primeira idéia que apareça. E neste sentido, que anteriormente havia feito referência a "iluminados". Como será a revolução? Não existe, hoje, resposta prática e teórica a essa questão. Daí a importância de nossas ações, como revolucionários, pois são elas que mantém vivas as esperanças de que resistiremos à barbárie.
É neste sentido, também, que devemos ser críticos de nossas ações. Elas são o centro e ao mesmo tempo o calcanhar de Aquiles do combate que precisamos e devemos dar ao capitalismo que exacerba a maldade humana. Temos que agir, cada vez mais! Mas ao mesmo tempo temos que duvidar de nossas ações, entendendo que elas carecem de novos acúmulos qualitativos para fazer frente às novas contradições dos tempos atuais.
Assim, diante das ações de grupos e pessoas que lutam porque não se conformam com essa sociedade, devemos incentivá-las, animá-las e criticá-las, num intenso exercício de crítica e autocrítica. E diante de explicações fragmentárias destas ações, pretensamente articuladoras, devemos combatê-las, pois inibem e enfraquecem as próprias ações.
Foi com este propósito que escrevi as cartas ao CEPAT Informa. E com este propósito que cito o poeta Mário de Andrade: "As almas são árvores. De vez em quando uma folha da minha vai voando poisar nas raízes da de você. Que sirva de adubo generoso. Com as folhas da sua, lhe garanto que cresço também". ( A Lição do Amigo Cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade).
Rio de Janeiro, 07 de junho de 1999.