Comunicação Comunitária - uma alavanca para a Sócioeconomia SolidáriaNeusa Ribeiro, jornalista.
Porto Alegre, 16/02/2000.Pensar um novo processo de comunicação em que o ser humano se aproprie das técnicas e construa a partir de suas vivências, coletivamente com os seus parceiros, novos modelos e sistemas de divulgação de seus meios de produção também deve ser fator de discussão entre os debates que envolvem a sócioeconomia solidária. Mais do que nunca o domínio dos diversos setores de produção, que gera riqueza e que mantém os grandes grupos empresariais com o poder da comunicação do mundo, nas mãos, tem colocado, ao longo dos últimos 50 anos, o cidadão comum, aquele que efetivamente é o produtor dos bens de capital, cada vez mais distante desse domínio, subjugado aos interesses desses grupos, e sendo tratado apenas como um elemento a mais na manipulação da informação.
É certo também que questões sérias relacionadas à formação do indivíduo, especificamente no que se refere aos diferentes processos educacionais, tão fundamentais como a alimentação, a saúde, a segurança, de populações de países como o Brasil e outros, não só da América Latina, estão no fundo das discussões. Populações essas que hoje sobrevivem com subempregos, sofrem diretamente o problema, e esperam, fundamentalmente da gestão pública e da vontade de seus governantes, que se mantêm também reféns dos grandes monopólios da comunicação, como se mantêm reféns dos grandes grupos econômicos, de maneira geral, encaminhamentos que supostamente atenderiam suas necessidades.
Néstor Garcia Canclini, em seu livro Consumidores e Cidadãos, comenta:
"A subordinação dos países latino-americanos se tornará mais aguda com a eliminação dos poucos subsídios ao desenvolvimento tecnológico local e das tarifas para a produção estrangeira pelos acordos de livre comércio. Uma maior dependência cultural e científica das tecnologias comunicacionais de ponta que demandam altos investimentos financeiros mas ao mesmo tempo geram inovações mais velozes, nos tornam mais vulneráveis aos capitais transnacionais e a orientações culturais geradas fora da região. Nesta área, o multiculturalismo procede não tanto de tradições históricas diversas, mas da estratificação engendrada pelo acesso desigual dos países e dos setores internos de cada sociedade aos meios avançados de comunicação".
Pois é partindo de princípios que se fundamentam num aprendizado elementar da troca de saberes, como o que se propõe a sócioeconomia solidária, invertendo o processo de empoderamento das populações, buscando e construindo alternativas de produção com geração de renda de forma mais justa e solidária, onde a principal moeda é a participação, é que deve-se pensar na comunicação como uma construção comunitária, que alavanca o desenvolvimento de práticas da sócioeconomia solidária. E como isso pode acontecer? Partindo de experiências já existentes, principalmente na América Latina, como as rádios comunitárias em diversos países, e
se estimulando o desenvolvimento de práticas (tv comunitária, boletins informativos impressos, radiofônicos, gravados, ao vivo, uso de equipamentos como a internet, a velha e boa prática da discussão em grupo, enfim qualquer prática de comunicação) que propiciem a troca dessas experiências, produzidos pela própria população com o aproveitando da sua riqueza de conhecimento e acúmulo de vivências.
José Luiz Coraggio tem discutido a questão da conscientização do sujeito para o seu papel no exercício de práticas econômicas populares que se fortalecem na medida em que se constituem forças coletivas de transformação da economia. Diz ele em artigo sobre Reforma Urbana e os Desafios da Gestão Democrática da Cidade que:
"O 'capital humano' é uma categoria social, que constitui o mobilizador econômico de indivíduos e grupos articulados e orientados para reprodução ampliada de suas vidas" e se constitui "um acervo inseparável da pessoa, da unidade doméstica e, por extensão, da comunidade...". Afirma ainda o estudioso, que "a principal política de inversão" para a melhoria da qualidade de vida do "capital humano" é a que centra-se na educação - formal, informal ou não-formal - orientada à expansão sistemática das capacidades, destrezas e habilidades de seus portadores, assim como a criação de um meio estimulante para a aprendizagem, institucionalizando um aprendizado prático sistemático e acumulativo".
Dessa forma, a comunicação pode estar junto no desenvolvimento de modelos alternativos da sócioeconomia solidária, traduzindo-se num elemento de composição importante na construção de uma sociedade mais justa. Na medida em que o sujeito principal da ação econômica se conscientiza do valor de sua força de trabalho, também deve conscientizar-se para o poder que tem de comunicar-se com os demais parceiros e divulgar suas ações coletivamente.
Com essa apropriação legítima do conhecimento e das técnicas engendradas pelos grandes monopólios, discutindo novos-velhos valores embasados em conceitos culturais, econômicos e sociais de cada grupo, foge-se da pressão exercida pela publicidade, pelo marketing, e pode-se sim ter liberdade de escolha para um consumo mais adequado e justo. E a rede se constrói muito mais fortalecida, como a que é tecida ao amanhecer com o canto de um galo que canta, e tem seu canto reproduzido através de outros cantares de seus semelhantes, anunciando esse novo dia que chega.