O Brasil está na corda bamba

- Entrevista de Paul Singer ao Extra Classe - SINPRO-RS

O economista Paul Singer, apesar de nascido em Viena, Áustria, vive no Brasil desde os oito anos de idade e não deixa dúvidas quanto à sua brasilidade. Ele fala dos caminhos possíveis e impossíveis à economia brasileira, das conseqüências da opção pelo neoliberalismo, do socialismo do futuro e da polarização no debate entre desenvolvimento e monetaristas. Para ele a submissão do novo governo à cartilha do capital internacional é injusta e desumana. Atento, aponta alternativas socialistas e capitalistas para o mesmo problema. No seu currículo, Singer traz a fundação do Cebrap. Além disso, foi secretário de planejamento da cidades de São Paulo e atualmente é professor na Unesp e da FEA-USP. Algumas de suas propostas e análises podem ser conferidas no seu livro mais recente, "Globalização e Desemprego", agraciado com o prêmio jabuti/1999. Uma pequena parte das suas teses foi exposta nesta entrevista exclusiva ao Extra Classe.

Extra Classe - Qual a principal diferença entre a economia brasileira antes e depois da opção pelo neoliberalismo? Que tipo de ruptura houve com o antigo modelo, que vigorou até a eleição de Fernando Collor (1989)?

Paul Singer - Houve uma ruptura radical e a principal característica dela é a abertura do mercado interno, que historicamente sempre foi protegido. Além disso, foi redefinido o papel do Estado na economia, cuja interferência passou a ser vista como negativa pelos neoliberais. Negou-se, então, a importância do Estado nos processos de desenvolvimento, justificando- se assim a ampla privatização do setor público a que assistimos nos últimos anos. Ou seja, até a década de 90 praticamente não se importavam produtos similares aos produzidos no país. Isso simplesmente deixou de existir. No caso do papel do Estado a mudança é mais complexa. Desde os anos 30 até o final dos anos 70 - diga-se de passagem, os melhores 50 anos da história econômica brasileira - a liderança do governo para a promoção do crescimento econômico era exercida por meio de dois instrumentos: o próprio setor público, considerado estratégico, e o crédito subsidiado para alguns segmentos produtivos. Atualmente, vivemos a situação inversa: não há investimento público e a ajuda a setores estratégicos desapareceu.

EC - Nesse caso, se a década de 80 foi considerada perdida, devido à hiperinflação e ao baixo crescimento, como podemos definir os anos 90?

PS - Se a década de 80 foi perdida do ponto de vista econômico, a de 90 é tudo isso, só que ao quadrado. O país manteve por meio século uma média de crescimento acima de 7% ao ano. Hoje este crescimento registra menos de 1% na média. São dez anos de estagnação, com números inferiores aos da década anterior. EC - Mas o governo alega que a pobreza diminuiu e que há maior distribuição de renda. PS - De fato. Entre 1994 e 1995, 12 milhões de brasileiros que pertenciam à faixa de pobreza ascenderam na pirâmide social e isso é o que de mais positivo pode ser registrado. Inclusive, o governo se vangloria disso até hoje. Mas o que não é dito é que outros setores foram empobrecidos, como o dos trabalhadores do campo e operários de indústrias, devido à abertura do mercado interno e do conseqüente fechamento de postos de trabalho. Ou seja, gente que era pobre deixou de ser pobre, mas gente que não era passou a ser. Tudo isso ocorreu mais ou menos na mesma proporção.

EC - Como o senhor vê a polarização entre monetaristas (que defendem a estabilidade econômica a qualquer preço) e desenvolvimentistas (que preferem o crescimento ao controle da inflação)? Essa dicotomia não seria uma redução do debate?

PS - Tematicamente esta é a grande discussão hoje. Eu não tenho a menor dúvida de que o Brasil poderá voltar a crescer desde que haja um outro consenso político no país. É preciso lutar para que este consenso seja construído. A questão do desenvolvimento foi colocada na ordem do dia. E não foi pelos trabalhadores, que sempre foram a favor de uma economia dinâmica, mas por uma parte significativa do empresariado. Os trabalhadores nunca compraram o peixe neoliberal. A própria Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), que sempre manteve uma postura neoliberal, está na vanguarda dos desenvolvimentistas, isso graças a uma nova geração de empresários que ascendeu à liderança. Só a Fiergs (Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul) é que ainda não reviu isso.

EC - Voltar a crescer como?

PS - Com o que eu e um grupo de pessoas chama de Economia Solidária. São formas socializantes de organizar democraticamente, e de maneira solidária, a produção. Isso pode ser feito, por exemplo, por meio de cooperativas e associações. Uma demonstração disso é a proliferação de cooperativas operárias, não só na América Latina como na Europa também. Ameu ver, a construção deste tipo de economia passa também pela experiência de incubadoras de cooperativas que estão sendo realizadas em dez universidades brasileiras. Outras 20 já estão em processo de formação, algumas delas têm cerca de 50 empresas com 15 mil trabalhadores autogerindo essas experiências. Além disso, existem diversas iniciativas de produção cooperativada dentro dos assentamentos do MST e inúmeros outros exemplos dos quais se poderia falar horas, se houvesse tempo. Mas isso eu reconheço que não é solução para quem precisa comer amanhã. Para isso é preciso reverter a macroeconomia brasileira, rompendo com a subordinação ao capital financeiro globalizado e retomando o planejamento para um crescimento vigoroso, com vistas a deter o desemprego em massa. Isto é viável.

EC - Isto pode significar algum tipo de isolamento do país no cenário dessa economia globalizada?

PS - Eu acho que o isolamento seria ruim para o Brasil. Mas fechar - ou limitar - o mercado para o capital financeiro não significa fechar o comércio com o mundo. São coisas bem distintas. Está aí a China, por exemplo, que não está nem um pouco isolada, muito pelo contrário: está crescendo.

EC - Que tipo de perigo o Brasil corre hoje se não mudar o modelo econômico?

PS - Estaríamos prolongando esta tragédia social em que vivemos, de empobrecimento, desemprego e exclusão em grandes proporções. A tudo isso, se não houver uma reação política, a resposta pode ser individual e desorganizada. A previsão pode ser de uma guerra civil maluca sem fins políticos, causada pelo puro desespero de uma população sem qualquer possibilidade legítima de sobrevivência. Um pouco disso já pode ser presenciado nas ruas hoje.

EC - Como ficam, nesse contexto, as posições de economistas como o senhor, identificados com a esquerda?

PS - A esquerda socialista, marxista, ou, como se preferir chamar, deve e já está fazendo uma autocrítica profunda. A grande conclusão que alguns chegam em conseqüência deste debate, e eu sou uma dessas pessoas, é que permanece a reivindicação por uma sociedade livre, democrática e igualitária. Uma sociedade com maior descentralização nas decisões, tanto econômicas como políticas.

EC - O senhor costuma mencionar saídas capitalistas e não-capitalistas para as eternas crises do Brasil. Como isto se dá?

PS - As saídas capitalistas são aquelas compatíveis com os conceitos de propriedade privada e tudo o mais. É, de certa forma, o que vinha sendo feito até os anos 80. Por outro lado, poderíamos ter um governo mais comprometido com os trabalhadores, tendendo a ultrapassar os limites do capitalismo, mas não necessariamente rompê-los.

EC - Em seu livro Globalização e Desemprego o senhor aponta a exclusão social sob duas óticas, a do individualismo e a do estruturalismo. O senhor poderia explicar estes conceitos?

PS - Esta é uma questão fundamental. Para os liberais o desemprego não é um problema social, é uma opção individual e voluntária. Para eles, produzir soluções para o desemprego que está acima do nível considerado de equilíbrio gera inflação. Cria-se uma situação em que os empregadores pagam os salários e jogam isso nos preços, criando uma ilusão. No final, o trabalhador, na hora de comprar o que produz, descobre que está cada vez ganhando menos. Aoutra visão - do estruturalismo - é de que o problema é social, e que os trabalhadores aceitariam trabalhar pelo que é pago para a sua atividade profissional e até por menos. Ou seja, são duas visões completamente opostas. A pergunta que deveria ser feita é a seguinte: quanto de capital externo o Brasil precisa para financiar esse modelo? Mas a resposta não existe, simplesmente porque para a visão neoliberal não exis-te esta entidade chamada Brasil. O que existe aqui - na visão deles - são pessoas que moram, vivem e trabalham desta ou daquela forma gerando ou não um mercado.

EC - O senhor praticamente anteviu a recente crise de fuga de capitais que assolou os mercados. Quais os riscos que ainda corremos e como o senhor analisa a atuação de Armínio Fraga (presidente do Banco Central) no momento atual?

PS - Ele está agindo como um jogador de pôquer, habilidoso, mas que não muda o jogo em si. A única mudança foi a desvalorização da moeda, que em tese permite o aumento das exportações. Fora isso, permanecemos sempre à mercê de uma nova fuga, como já estivemos em maio último, por motivos desligados da situação brasileira (dessa vez, o susto veio com uma possível desvalorização do peso argentino). O capital vai e volta para o Brasil sempre por motivos misteriosos e inexplicáveis. Embora tenha diminuído a recessão dos últimos meses, permanecemos na corda bamba.

Fonte: http://www.sinpro-rs.org.br/extra/jul99/entrevista.htm