Conceitos Básicos
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I
Operando sob o paradigma da complexidade, desdobramos as conseqüências de uma hipótese simples: sendo praticados a produção e o consumo solidários em laços de realimentação, qualquer unidade produtiva pode vender toda a sua produção, gerando um excedente de valor econômico que permite criar novas unidades produtivas solidárias que, conectadas em rede, podem atender a uma diversidade ainda maior de elementos demandada pelo consumo final e produtivo de novas células, incorporando um número progressivamente maior de consumidores e produtores em um movimento auto-sustentável de expansão. A essa hipótese acrescentamos uma segunda: os sujeitos atualmente excluídos nas sociedades capitalistas podem organizar redes de colaboração solidária em suas comunidades, partindo das ações que atualmente desenvolvem de consumo, posto que a prática de compras solidárias e coletivas permite melhorar o padrão de consumo de todos os participantes e, ainda, poupar recursos que podem financiar atividades solidárias de produção que, por sua vez, possibilitam aprimorar ainda mais o seu consumo em quantidade, qualidade e diversidade. O conjunto dessas duas hipóteses, se confirmado, nos leva à conclusão de que uma certa revolução econômica (integrando ações locais, regionais e globais) pode difundir-se contemporaneamente na medida em que os atores, que buscam gerar alternativas de auto-sustentação econômica frente à exclusão capitalista, conectem suas ações de produção e consumo em uma ampla rede de colaboração solidária.
II
Os elementos básicos dessa rede são as
a) células de consumo (grupos de compras comunitárias, por ex.) e de produção (unidades produtivas cooperativadas, por ex., nas áreas de extração, cultivo, criação, transformação e serviço),
b) as conexões entre elas, e
c) os fluxos de materiais, de informação e de valor que circulam através da rede.
III
As propriedades básicas da rede são:
a) Autopoiese - a qualidade que ela tem de reproduzir-se a si mesma na medida em que é capaz de produzir os bens ou valores necessários para satisfazer suas próprias demandas e um excedente que lhe permite expandir-se, incorporando mais pessoas e aumentando, assim, a demanda produtiva.
b) Intensividade - trata-se da qualidade de envolver o maior número possível de pessoas tanto no consumo quanto na produção solidárias.
c) Extensividade - trata-se da propriedade de gerar novas células de produção e de consumo em regiões cada vez mais longínquas possibilitando chegar até elas os fluxos de matérias, informação e valor necessários a promover desenvolvimento local auto-sustentável.
d) Diversidade - refere-se a produzir a maior diversidade possível de bens visando satisfazer as necessidades e desejos de todos os consumidores solidários, buscando produzir tudo o que eles ainda consumam do mercado capitalista em função de seu bem viver ou como insumos necessários ao processo produtivo.
e) Integralidade - significa que cada célula, através da rede, está conectada a todas as outras células, sendo afetada pelo crescimento das demais ou por seus problemas e dificuldades, apontando-se, assim, a necessidade de um crescimento organicamente sustentável da rede como um todo, em razão do que dimensiona-se a composição orgânica da cada célula em particular, isto é, a incorporação de tecnologia em sua relação com o trabalho vivo empregado.
f) Realimentação - o fato de que uma célula demanda produtos e serviços de outras, o que permite o crescimento sustentável de todas, isto é, da rede como um todo. Quanto maior o número de células com maior intensividade, maior é a realimentação da rede.
g) Fluxo de Valor - significa que o valor econômico produzido em cada etapa da cadeia produtiva circula pela rede, podendo nela se concentrar ou dela evadir-se. Isto é, quando uma célula produtiva compra insumos do mercado capitalista (uma fábrica de macarrão compra ovos no mercado capitalista, por ex.), uma certa quantidade de valor sai da rede realimentando o giro capitalista. Entretanto, se uma nova célula que produza aquele insumo for criada em conexão com as demais (uma granja que supra a demanda por ovos), então aquele valor (gasto, neste exemplo, no consumo de ovos) permanece realimentando a produção de outra célula da rede. Por outro lado, se o que for produzido na rede for consumido por parcelas mais amplas da sociedade (vender macarrão e ovos para fora da rede, por ex.), então o volume de valor que resulta desse processo se concentra na realimentação da rede. O excedente de valor produzido pela rede pode ser utilizado para criar novas unidades produtivas que satisfaçam as demandas produtivas ou de consumo final dela mesma (uma unidade que produza trigo para o macarrão e ração para as aves, por ex., ou novos produtos finais que a rede consome mas que ainda não são produzidos por ela mesma).
h) Fluxo de Informação - isso significa que todo o conhecimento gerado na rede está disponível em qualquer célula. Assim, se por extensividade uma nova célula for criada em um local distante, a partir dela é possível que a comunidade tenha toda a informação necessária para replicar qualquer uma das células já existentes, possibilitando realizar a intensividade ampliando as possibilidades de emprego e renda local, melhorando o padrão de consumo de todos os envolvidos na colaboração solidária.
i) Fluxo de Matérias - significa que o que é produzido em uma célula pode ser consumido como insumo produtivo ou como produto final por outras células, de modo que uma realimenta outra. Com o desenvolvimento das redes, a tendência é que elas cheguem a formar cadeias produtivas completas ou semi-completas.
j) Agregação - trata-se da propriedade de redes locais se integrarem em redes regionais, de redes regionais se integrarem em redes internacionais e de redes internacionais se integrarem em uma rede mundial de colaboração solidária. Cada agregação fortalece a rede ampliando a diversidade de ofertas de produtos, aumentando a demanda deles e totalizando um volume maior de excedente, que pode ser aplicado na criação de novas células, ampliando a extensividade, isto é, a capacidade de expansão da rede em razão do maior fluxo de valor e especialmente de informação, com um banco de dados muito maior de células adaptáveis às diversas realidades locais.
IV
A gestão da rede deve ser necessariamente democrática, pois a rede depende da colaboração solidária, o que supõe a adesão e participação livre de cada pessoa. Entre outros aspectos têm-se:
a) Descentralização, uma vez que não há um núcleo central e que a partir de cada célula novas redes complexas podem se construir;
b) Gestão Participativa, uma vez que todos os trabalhadores e consumidores participam nas decisões sobre o surgimento de novas células, sobre o que deve ser produzido, sobre o reinvestimento do excedente, etc;
c) Coordenação, eleita democraticamente pelas células com mandato revogável;
d) Regionalização, com as instâncias democráticas organizando-se desde as células laborais e de consumo até às instâncias regionais e mundial.
V
A rede proposta compõe basicamente três tipos de células.
a) Células de Consumo - grupos de consumidores que se organizam em sistemas de compras comunitárias, comprando mercadorias direto dos fornecedores, suprimindo atravessadores e barateando o custo final de suas compras. Estas células dão preferência ao consumo do que é produzido na rede, comprando no mercado capitalista somente o que a rede não produz satisfatoriamente ao bem viver dos consumidores. Para atender as demandas que a rede ainda não satisfaz, novas células produtivas devem ser organizadas. Outros tipos de células de consumo, distintas das compras comunitárias, podem ser organizadas.
b) Células de Produção - tratam-se de unidades produtivas, sejam microempresas de porte similar aos padrões do SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), sejam unidades de produção doméstica e artesanal, cuja qualidade do produto permita satisfazer o bem viver do consumidor. Estas células geram produtos finais ou insumos produtivos. Elas também consomem Matérias Produtivas (insumos que fazem parte do produto final), Matérias de Manutenção e Energia (outras matérias e energias necessárias à manutenção da atividade produtiva, mas que não compõem o produto final) e Força de Trabalho, gerando, pois, postos locais de trabalho.
c) Células de Serviço - células prestadoras de serviço, no sentido terciário da expressão, que podem ser, por exemplo, de assessoria técnica, administrativa e contábil, qualificação profissional e produtiva, etc. Atividades de comércio solidário podem igualmente ser consideradas serviços prestados à rede. Aqui também podem ser incluídas todas as ONGs que atuam com educação popular e outros tipos similares de atividade de colaboração solidária pertinentes ao setor de serviços.
VI
Quando algumas células já estiverem conectadas, conformando uma rede local desse tipo, o surgimento democrático de novas células, conforme a estratégia que apresentamos, passa por algumas fases:
a) Projeção, quando a proposta de incorporar uma nova célula é feita ao conjunto dos participantes da rede.
b) Avaliação - fase em que o conjunto dos participantes analisa se o novo bem ou serviço a ser, respectivamente, produzido ou ofertado é do interesse da rede de consumidores e produtores, e se os custos de produção ou de serviço, o seu preço final ao consumidor e o volume do bem a ser efetivado ou do serviço a ser disponibilizado são compatíveis com a autopoiese da rede. Considerando a avaliação coletiva, a coordenação aprova ou rejeita a realização da nova célula.
c) Realização - período em que a nova célula aprovada estará sendo efetivada até que seja de fato incorporada, quando efetivamente passa a oferecer produtos e ampliar a demanda por consumo produtivo e final.
VII
Destaque-se que as células podem surgir por quatro movimentos distintos.
a) Geração espontânea - quando quaisquer pessoas (alguns desempregados, por exemplo) movidos pela livre iniciativa solidária propõem o surgimento de uma nova célula que efetive algum bem ou serviço qualquer.
b) Cadenciamento - trata-se do surgimento de uma nova célula que visa produzir um insumo para uma outra célula ou prestar-lhe algum serviço permanente, permitindo que o fluxo de valor realimente o próprio crescimento da rede.
c) Fissão - que ocorre quando uma célula passa a produzir insumos, produtos finais ou serviços que alimentam muitas outras células, tornando-se necessário - para uma estratégia segura de crescimento da rede - fracionar esta célula, isto é, criar uma outra célula similar preferencialmente mais próxima à região de um conjunto de células consumidoras daquele produto ou serviço. Deste modo a produção ou serviço que era efetivada por uma determinada célula é agora efetuada por mais células. Caso ocorra algo inesperado com aquela célula que estava hiperconectada - um incêndio criminoso ou a cooptação capitalista dos trabalhadores que nela atuam - a produção de insumos e a garantia de produtos finais e de serviços que realimentam a rede podem ser supridas elevando-se temporariamente a atividade laboral em outras células similares.
d) Conversão de sistema - trata-se de microempresas capitalistas que não conseguindo competir no mercado capitalista (porque não dispõem da melhor tecnologia) e não tendo a vantagem de escoar toda a sua produção com o consumo final solidário, acabam se endividando ou exigindo do proprietário um sobretrabalho intenso para manter o seu negócio, levando-o a optar, enfim, por converter sua unidade produtiva ao sistema de colaboração solidária, abandonando a idéia de acumular lucro privado, preferindo participar do bem viver progressivo que a rede vai gerando aos que nela se integram. Na fase final de expansão da rede, grandes unidades produtivas também serão convertidas ao sistema de colaboração solidária, contribuindo para reduzir a jornada de trabalho de toda a rede e ampliar o tempo livre para o bem viver.
VIII
Sobre a dinâmica das células cabe salientar que
a) cada uma possui um Grau de Conectividade com as demais. Células hiperconectadas necessitam ser fracionadas, garantindo crescimento seguro à rede.
b) A Produção realizada pelas células laborais pode ser analisada considerando-se o valor de reposição, isto é, o valor que a célula necessita produzir para atender as demandas de sua própria reposição como célula e o valor excedente, isto é, o valor a mais (considerado lucro sob o sistema capitalista) produzido por esta célula que será reinvestido na rede permitindo o surgimento de novas células por cadenciamento, fissão ou geração espontânea.
c) Por fim, o Consumo é efetivado por todas as células. No caso das células de consumo, estas realizam o consumo final; no caso das células laborais (de produção ou serviço), o consumo de insumos, energias, materiais de manutenção e força de trabalho é considerado consumo produtivo. Toda a forma de consumo pode realimentar a rede como um todo quando as células laborais sejam capazes de atender tal demanda.