.

From: Neusa Ribeiro 
Date: Sat Dec 16, 2000 1:17pm



I Fórum Social Mundial


   Mais de 10 mil pessoas vão discutir
   alternativas ao neoliberalismo e a globalização

  Riqueza e democracia são os dois grandes temas em pauta no I Fórum Social
  Mundial  (FSM),  que  será  realizado entre os dias 25 e 30 de janeiro de
  2001,  no  Centro  de  Eventos  da  PUC/RS,  em Porto Alegre. No exame da
  riqueza  mundial,  estará  em  análise  a  sua  formação,  concentração e
  distribuição,  abrangendo  ainda,  emprego,  meio ambiente e liberdade do
  capital  financeiro.  Será  discutida a limitação democrática dos estados
  nacionais frente à ampla liberdade de operação do capital financeiro, bem
  como  o peso de órgãos como o Fundo Monetário Nacional (FMI). Esses temas
  abrem a discussão para outros, relacionados aos direitos civis e humanos.
  Desta  forma,  o Rio Grande do Sul passará a ser também uma referência de
  oposição  a  Davos  (Suíça),  onde ocorre anualmente, desde 1971, o Fórum
  Econômico  Mundial - financiado por mais de mil empresas multinacionais -
  que  ocupa papel estratégico na formulação do pensamento dos que promovem
  e defendem as políticas neoliberais.

  Cerca  de  500  delegados de entidades não-governamentais de todo o mundo
  definiram em Genebra, no dia 24 de junho deste ano, a capital gaúcha como
  local  de realização da primeira edição do evento. A principal referência
  para  o fato de Porto Alegre sediar o evento é o modelo de gestão pública
  desenvolvido  -  há  uma década em `Porto Alegre e há dois anos em todo o
  Estado - com o processo do Orçamento Participativo.

  Com  a  proposta  de ser um novo espaço internacional para a reflexão e a
  organização de todos os que estão construindo alternativas para priorizar
  o  desenvolvimento humano e superar a dominação dos mercados nas relações
  internacionais, o I Fórum Social Mundial deve reunir 2700 delegados. Eles
  foram  escolhidos  pelos  Comitês  Nacionais  de  Mobilização  do  Fórum,
  obedecendo   a  critérios  regionais.  Deste  total  25%  são  ligados  a
  sindicatos,  25%  a  Ongs,  25%  a  movimentos urbanos e rurais e 25% são
  políticos. Até agora, do total de delegados, cerca de 1300 são da América
  Latina, 500 da Europa, 300 da África, 300 Ásia e 100 do Oriente Médio.
  Participam  representantes  de  Organizações  Não  Governamentais (ONGs),
  sindicatos,  movimentos  sociais,  grupos  de  cidadãos,  palestrantes  e
  portadores  de  mandatos eletivos. Os participantes estão sendo inscritos
  pelas  organizações  que  representam.  Também são essas organizações que
  promovem  e  financiam  o  encontro, sendo que o Governo do Estado do Rio
  Grande  do  Sul e a Prefeitura de Porto Alegre são apoiadores oficiais do
  FSM.

  O  evento  não  é uma instância de deliberação sobre as teses e propostas
  nele  apresentadas.  Os  participantes, contudo, terão plena liberdade de
  tomar  decisões  e divulgar propostas e tomadas de posição que resultarem
  das suas reuniões específicas de articulação. Dentro das preparações para
  o  FSM  realizadas ao longo dos últimos meses, o Governo do Estado vem se
  empenhando em divulgar e convocar representantes de entidades, organismos
  e  governos  de  todo  o  mundo.  Em  decorrência  destes  contatos,  foi
  confirmada  a  presença  de  numeroso grupo de parlamentares, ministros e
  autoridades eclesiásticas européias.

  A  proposta  de  criar  o  Fórum  Social  Mundial partiu das mobilizações
  ocorridas  na  Europa contra o Acordo Multilateral de Investimentos (AMI)
  em  1998,  das  grandes  manifestações  de Seattle, durante o encontro da
  Organização  Mundial  do  Comércio  (OMC)  em  novembro  de  1999,  e das
  realizadas  recentemente  em  Washington  contra  as  políticas  do Fundo
  Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Mobilizações como essas
  resultaram  num movimento cívico além das fronteiras nacionais. Em todo o
  mundo  crescem  esforços no sentido de buscar alternativas que coloquem o
  desenvolvimento   humano   e  a  democracia  participativa  como  fatores
  prioritários de governos e cidadãos.

  O comitê de organização brasileiro do Fórum Social Mundial é composto por
  oito  entidades: Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais
  (Abong);  Ação  pela  Tributação  das Transações financeiras em Apoio aos
  Cidadãos  (Attac-BR);  Comissão Brasileira Justiça e Paz, da CNBB (CBJP);
  Associação  Brasileira  de  Empresários  pela  Cidadania (Cives); Central
  Única  dos  Trabalhadores  (CUT);  Instituto Brasileiro de Análises Sócio
  Econômicas  (Ibase);  Centro  de  Justiça  Global  (CJG);  Movimento  dos
  Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

  Conforme  Chico  Vicente,  da  Attac-BR,  o  FSM  surge da necessidade da
  construção  de ações concretas. O MST, por exemplo, vai lançar a idéia de
  uma  campanha  para  que  a  semente  seja  transformada em patrimônio da
  humanidade,  dentro  da  luta  contra  o uso de transgênicos. A Attac irá
  propôr   a   determinação   do   Dia   Internacional  de  Luta  contra  o
  Neoliberalismo, que deverá ocorrer no equinócio de 2002. ?No equinócio, o
  dia  e  a  noite  são iguais, temos um símbolo de igualdade. Queremos que
  este  dia  seja  um  marco  para a humanidade?, explica Chico Vicente. No
  manifesto do comitê, são citados o Terceiro Mundo e os pobres e excluídos
  dos  países  desenvolvidos,  ?que sofrem duramente os efeitos da política
  devastadora da globalização liberal e da ditadura dos mercados, conduzida
  sob  a égide do FMI, do Banco Mundial, da OMC e dos governos que lhes são
  fiéis?.

  Também  será  proposto  no  FSM, a taxa Tobin, baseada na idéia do prêmio
  Nobel  de Economia, o norte-americano James Tobin, de que incida sobre as
  transações  financeiras  taxa de 1%. Segundo a idéia, isso renderia cerca
  de 170 bilhões de dólares ao ano, que poderiam ser destinados, através de
  um  fundo,  ao  combate  à  fome  e  à  miséria, principalmente de países
  localizados na África, Ásia e América Latina.

  Algumas  das  cerca  de 100 personalidades nacionais e internacionais que
  confirmaram presença até o momento: Alfredo Guevara, cineasta; Boaventura
  de  Souza  Santos,  sociólogo português; Daniele Miterrand, presidente da
  associação  France  Libertè;  Eduardo Galeano, escritor uruguaio; Eduardo
  Suplicy,  senador  brasileiro  pelo Partido dos Trabalhadores; Frei Beto,
  brasileiro;  João  Pedro  Stédile,  dirigente  nacional  do Movimento dos
  Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); José Ramos Horta, líder timorense e
  prêmio  Nobel  da  Paz  em  1996; Leonardo Boff, teólogo brasileiro; Luiz
  Inácio  Lula  da  Silva, presidente de honra do Partido dos Trabalhadores
  (PT)  e  conselheiro  fundador  do  Instituto Cidadania; Marina da Silva,
  senadora  brasileira  pelo  Partido  dos Trabalhadores; Nora de Cortiñas,
  presidente   das  Mães  da  Praça  de  Maio;  Oscar  Niemeyer,  arquiteto
  brasileiro;  Raí,  jogador  de futebol brasileiro; Samir Amin, economista
  egípcio,  diretor  do Fórum do Terceiro Mundo em Dakar e do Fórum Mundial
  das  Alternativas;  Sebastião  Salgado,  fotógrafo  brasileiro  e Vandana
  Shiva, física, ecofeminista, escritora e líder do Movimento Internacional
  pela Preservação do Meio-ambiente e Culturas Agrícolas Indígenas.
  Atividades paralelas

  Estão  programados  diversos eventos simultâneos e manifestações em torno
  dos  objetivos  do  encontro  em  todo  o mundo. Circuitos de palestras e
  debates deverão também ser realizados paralelamente ao evento, envolvendo
  diretamente  os  cidadãos.  O  FSM  compreenderá três tipos de atividade:
  sessões  plenárias  diárias  com palestras e exposições de personalidades
  convidadas;  encontros  para apresentação de iniciativas em curso e troca
  de   experiências;   e  reuniões  de  entrosamento  e  articulação  entre
  organizações  sociais  que desenvolvem o mesmo tipo de luta. De manhã, os
  painéis girarão em torno de grande eixos: A produção da riqueza; o acesso
  às  riquezas  e  a sustentabilidade; A afirmação da sociedade civil e dos
  espaços  públicos e o Poder político; e Ética na Nova Sociedade. À tarde,
  haverá   oficinas   e   dabates  propostos  pelas  próprias  organizações
  participantes.

  Integrando  a  programação,  ocorrerá  o  Fórum Parlamentar Mundial ? com
  cerca  de  500 participantes - nos dias 27 e 28 de janeiro. Parlamentares
  de   todos   os  países  vão  discutir  temas  cruciais  no  contexto  da
  globalização   neoliberal.  Entre  eles  estão:  a  desregulamentação  de
  mercados,  o  endividamento,  transações  financeiras  especulativas e os
  riscos  à  democracia  face  à  globalização. Aos parlamentares de todo o
  mundo  está  reservada a tarefa de constituir uma plataforma comum para o
  enfrentamento  ao  neoliberalismo,  bem  como  a  organização  de  formas
  articuladas  de  luta  capazes  de  obstruir  os  elos  que cristalizam a
  hegemonia neoliberal a partir de bases nacionais.
  A Prefeitura de Porto Alegre está organizando o Fórum de Governantes, que
  deve reunir aproximadamente 1000 pessoas. Jovens de todo o mundo já estão
  organizando  caravanas  para participarem do Acampamento da Juventude que
  será  montado no Campus da Agronomia. No parque da Harmonia o Acampamento
  Indígena  deve  reunir  mais de mil representantes de nações indigenas de
  todas as partes do mundo.
  Dinâmica das Atividades

  Na  parte  da  manhã  no  Centro de Convenções da Pontifícia Universidade
  Católica  (PUC),  acontecem as palestras exclusivas para delegados. Serão
  quatro  palestras  acontecendo  ao mesmo tempo com tradução simultânea em
  três  línguas  (inglês, francês, espanhol). Uma delas será transmitida ao
  vivo,  para um telão colocado no Auditório Araújo Vianna - com capacidade
  para  quatro mil ? localizado no Parque da Redenção, área mais central da
  cidade.

  Na  parte da tarde, ainda na PUC, das quatro salas equipadas com tradução
  simultânea,  três  serão  ocupadas por oficinas e uma para coletivas. Nas
  outras  60  salas  disponíveis  na  PUC, acontecerão diversas atividades,
  entre palestras, oficinas e reuniões.

  Nos  outros  espaços públicos municipais e estaduais da cidade, acontecem
  em  torno  de  350 eventos, promovidos por ONGs dos mais diversos países,
  onde   serão   discutidos   assuntos   como   transgênicos,  direitos  do
  trabalhador,  participação popular, políticas de gênero, direitos humanos
  entre  tantos  outros.  A  maioria  dos eventos são abertos ao público em
  geral e para participar basta comparecer ao local do evento.
  À  noite no anfiteatro Por do Sol, as margens do Rio Guaíba, acontecem os
  shows  musicais.  Para  a  abertura  já está confirmada a apresentação do
  músico  francês Mano Chao. Também estão confirmados, Zeca Baleiro, Lobão,
  Leci Brandão, Beth Carvalho, Nei Lisboa e Vitor Ramil.

Credenciamento e reservas

  O Governo do Estado está credenciando os jornalistas que desejam fazer a
  cobertura do Fórum Social Mundial. Até o final desta semana deverá estar
  disponível via internet a ficha de credenciamento. (...) Mais informações podem ser acessadas nos sites:
  http://www.estado.rs.gov.br/forumsocialmundial/ e forumsocialmundial.org.br. Para os participantes, inclusive os
  jornalistas, as reservas de hotel devem ser feitas através da agência
  www.astratur.com.br/forum-hoteis.php.