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Enviado por Marcos Arruda
Quarta-feira, 12 de Julho de 2000 15:50.

1o. ACAMPAMENTO DE SOCIOECONOMIA SOLIDÁRIA

Por várias razões acho importante registrar este evento, realizado em Santa Maria, RS, entre 1 e 7/7/00, e promovido pelo Fórum das Cooperativas de Santa Maria. Reuniu indivíduos e entidades relevantes de empreendimentos cooperativos e solidários do Estado do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, e também do Uruguai, Paraguai, Argentina, Colômbia, Espanha e Itália. Contou com a presença de Vicente Bogo, novo presidente da Organização das Cooperativas do ERGS, que tem levado adiante um programa transformador do cooperativismo riograndense. Coincidiu com o 100o. aniversário do Cooperativismo no Brasil, por iniciativa do padre suíço Theodor Armstadt, que juntou num grande encontro, no interior do RS em 1900, 5.000 trabalhadores do campo para apresentar a idéia do cooperativismo autogestionário. Coincidiu também com a 7a. Feira Estadual do Cooperativismo Alternativo, promovida pelo Projeto Esperança, ligado à Diocese de Santa Maria.

O Dia Internacional do Cooperativismo (1/7) foi festejado em público, no Terminal de Comercialização Direta, e animado pelo 103o. Feirão Colonial de Santa Maria. Uma grande tenda ficou armada em praça central de Santa Maria, e nela ocorreram eventos culturais e artísticos. Na noite de 4/7 a Câmara de Vereadores de Santa Maria acolheu evento em homenagem ao 100 anos de Cooperativismo no Brasil, com a presença de Dom Ivo Lorscheider e da Irmã Lurdes Dill, do Projeto Esperança - COOESPERANÇA. No evento de abertura da
7a. Feira Estadual do Cooperativismo Alternativo, em 7/7, vários oradores fizeram uma retrospectiva do cooperativismo autogestionário no Brasil, prestando-se homenagem a personagens que marcaram esta história, entre elas o Pe. Armstadt e Dom Hélder Câmara. Os participantes foram incentivados também a envolver-se ativamente na preparação do Plebiscito Nacional da Dívida Externa (2-7/9/00).

Os trabalhos do Acampamento foram abertos com apresentações por autoridades locais e estaduais. Os outros painéis do Acampamento contaram com a contribuição de   participantes do Brasil e do exterior e geraram ricos debates. Todos afirmaram a autogestão e a solidariedade como dois valores centrais para a construção da Socioeconomia Solidária. Victor Fernandez, da Federação de Cooperativas de Habitação do Uruguai, contou a luta que leva este movimento desde o fim da ditadura militar, que durou mais de uma década e só terminou em meados dos 80. Carlos Sanhuezo, membro de Colacot-Argentina, falou dos 600.000 sócios de cooperativas e dos 150.000 sócios de mutuárias numa população de 1,5 milhões da sua cidade, Mendoza. Mostrou como o ajuste estrutural de Menem-FMI levou à maciça privatização de estatais e também de cooperativas (vinho, distribuição energética). Mencionou os bônus de comércio, circulados na Bolsa de Valores como meio de financiamento de projetos sociais e de infraestrutura. Sublinhou a importância de redefinir o marco legal, que hoje afeta negativamente as iniciativas solidárias - impostos, patentes de medicamentos, intervenção estatal nas cooperativas de trabalho, etc. Francisco Verano Paez, da Colacot-Colômbia, explicou que, apesar do desinteresse do governo Pastrana pelo social, a economia solidária tem feito importantes progressos na Colômbia, inclusive a introdução em 1998 de nova legislação que reconhece, ao lado dos setores estatal e privado, o setor da economia solidária. Indicou que a luta não é mais por afirmar o cooperativismo como um caminho desejável - a história já o comprovou - mas desenhar um novo modelo de socioeconomia, cultura, política e Estado; um modelo centrado no ser humano e no seu trabalho, no ser mais que no ter,   e que promova a espiritualidade e a cultura da solidariedade. Mencionou a inovadora prática colombiana de planejamento municipal do desenvolvimento com base na cooperação e na solidariedade. As diversas palestras de Francisco provaram que a Colacot tem desempenhado um papel pioneiro na inovação socioeconômica   na América Latina.

Giovanni Acquati, do Banco Ético de Milão, falou da cooperativa mutuária autogestionária a que pertence, que começou como cooperativa de consumo e evoluiu para uma financeira solidária. Contou que o Banco Ético tem agora 5 anos e é uma instituição de âmbito nacional, representando uma revolução no sistema bancário italiano. Jordi ViaLlop apontou que a iniciativa de renovação das leis sobre o cooperativismo [e a economia solidária] - que também está ocorrendo na Espanha, tem que partir não do governo, mas da sociedade civil organizada, sobretudo do movimento cooperativo e associativo.

 

Os outros paineis do Acampamento focalizaram os seguintes temas:
1. Estado e Socioeconomia Solidária
2. O   Crédito Solidário
3. Projeto Pedagógico da Socioeconomia Solidária
4. Novas Relações de Trabalho
5. Marco Legal da Socioeconomia Solidária
6. Sistema Mercadológico

Nesta ficha não cabe nem mesmo um resumo das outras falas e debates relacionadas com esses temas. Sou obrigado a omitir a fala dos participantes brasileiros - humens e   mulheres. Ainda assim devo pelo menos citar o nome de alguns: Genaro Krebs, patriarca do cooperativismo, hoje professor na Universidade Nacional de Brasília, Pe. José   Odelso Schneider, UNISINOS, Profa. Tânia da Silva, COOPESMA, Jairo Carneiro, da Agência de Desenvolvimento Solidário/CUT, Luigi Verardo, ANTEAG, Armando Lisboa, da Universidade Federal de Santa Catarina, Erico Pegoraro, do SESCOOP-RS, Euclides Mance, do Instituto de Filosofia da Libertação, PR, Gilson Pinheiro, da Central de Cooperativas Autogestionárias do RS, Irmã Lourdes Dill, do Projeto Esperança, José Maria Pereira e Luis Ernani, da UFSM, Claudio Malgarin e Ney Gomes Filho. Marcos Arruda, além de discutir alguns dos temas em plenário, ofereceu aos participantes o Polo de Socioeconomia Solidária, da Aliança por um Mundo Responsável e Solidário, como um espaço de articulação e de partilha de reflexão e ação.

REDE GLOBAL DE SOCIOECONOMIA SOLIDÁRIA

Nas reuniões realizadas por um grupo de entidades do Brasil e do exterior, paralelas ao programa do Acampamento, tomou-se a decisão de iniciar os preparativos para a criação de uma Rede Global de Socioeconomia Solidária. O logo será o do Acampamento de Santa Maria. Os documentos de Encontros como o de Porto Alegre (1998) e Mendes, RJ (2000)* oferecem elementos conceituais para iniciar o diálogo sobre a Rede Global. Foi acordado que a Rede Global não seria uma organização, no sentido tradicional, mas uma articulação horizontal e não hierárquica, com base em interesses e objetivos comuns concretos, que busca maximizar a sinergia dos seus participantes, em benefício ao mesmo tempo de cada um e de todos. Seu fundamento será a confiança e a partilha dos valores e da práxis da cooperação, da co-responsabilidade e da solidariedade. A implantação local, regional e nacional será tão importante quanto o alcance global da Rede.

Os passos iniciais incluem: o estabelecimento de agendas compartilhadas entre os membros; consolidar uma lista de endereços eletrônicos; aproveitar-se dos sítios eletrônicos já existentes e trabalhar por abrir um portal da Rede Global; formular uma Carta indicando os princípios básicos da Rede e os critérios de participação; buscar articular-se em diálogo com outras redes internacionais e nacionais (inclusive Polo de Socioeconomia Solidária/Aliança, ATTAC, Fórum das Alternativas, Rede Global de Segurança Alimentar, Rede de Agricultura Orgânica do Brasil, Rede de Advogados Assessores de Cooperativas da Argentina, etc.), assim como com movimentos de base; começar a listar produtos (oferta) e insumos (demanda) dos empreendimentos que farão parte da Rede; desenvolver formas materiais e imateriais de apoio recíproco (incluindo câmaras ou redes locais de SES, o intercâmbio solidário de bens e serviços, visitas recíprocas, elaboração teórica sobre a prática, bibliografias); articular-se para exercer pressão sobre os centros de poder nacionais, multilaterais e globais em favor de causas comuns (como o processo visando a paz com justiça na Colômbia).

Até o fim do ano, ficou definido que estaríamos em "fase constituinte", convidando entidades e indivíduos e detalhando os objetivos, critérios básicos de participação e elementos de estratégia de ação comum. Entre as ações possíveis, citamos: participação ativa na Campanha do Jubileu 2000; planejar no futuro a publicação   de um periódico da Rede Global; estudar a idéia de um selo comum de qualidade de produtos; atuar em defesa dos direitos das crianças que trabalham; divulgar alternativas à economia da exploração do trabalho e da destruição ambiental. Criamos uma equipe de animação global, com referências em cada país/continente: Jordi (Espanha), Francisco (Colômbia/A.Latina), Victor (Uruguai), Marisa e Carlos (Argentina), Berta (Paraguai), Hélio/CESMA (Brasil); a consultar: Giovanni (Itália) e Horacio Azoca (Chile).

Finalmente, propôs-se um trabalho participativo de preparação de um Encontro da Rede Global para 2002. Os eventos da Aliança durante 2001 servirão de espaço de encontro e articulação entre participantes atuais e potenciais da iniciativa da Rede.

* Referência ao Encontro Latino de Cultura e Socioeconomia Solidárias (Porto Alegre, agosto de 1998) e ao Encontro Brasileiro de Cultura e Socioeconomia Solidárias (Mendes, RJ, junho de 2000).

PALAVRAS-CHAVE: AUTOGESTÃO; AUTOREGULAÇÃO; COMPLEMENTARIDADE; CULTURA; DOMINAÇÃO; ESTADO; EMPODERAMENTO; RECIPROCIDADE; REDES; RESPONSABILIDADE; SOCIOECONOMIA; SOLIDARIEDADE; SOCIEDADE.

FONTE:   PACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul - Rua Joaquim Silva, 56 - 8º andar - Centro - Rio de Janeiro, RJ, Brasil -

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