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A economia solidária no Fórum Social Mundial
(Jornal Valor Econômico 05.02.2001)
A economia solidária foi o tema de duas oficinas do Fórum Social mundial (FSM), que teve lugar em Porto Alegre, no fim do mês passado. Tive a ocasião de participar da Segunda, ao lado do prefeito de Belém do Pará, do diretor da Associação Nacional de Trabalhadores em Empresas de Autogestão (ANTEAG), do diretor da Agência de Desenvolvimento Solidário da CUT, de uma representante da Cáritas e do presidente da Cooperminas, uma cooperativa que opera há mais de uma década uma mina de carvão em Santa Catarina.
As exposições feitas mostraram que atualmente trabalhadores desempregados, arriscados de se tornarem desempregados ou excluídos há muito do mercado formal de trabalho estão se unindo cada vez mais em cooperativas de produção, de trabalho ou em associações análogas para gerar o seu próprio trabalho e renda. Isto está ocorrendo em todo o Brasil, desde o Rio Grande do Sul, onde o governo adotou a economia solidária como uma das suas prioridades, fazendo convênios com entidades especializadas, até Belém, onde a prefeitura capacita famílias beneficiadas com a bolsa-escola a se organizar em cooperativas, para que deixem de depender de transferências do poder público para manter os filhos na escola.
Em Pernambuco, a Usina Catende, em que vivem e trabalham mais de 3 mil famílias, faliu a cinco anos e, desde então, vem sendo operada com sucesso pelos próprios trabalhadores, como credores privilegiados da massa falida. O mesmo está acontecendo com centenas de empresas solidárias filiadas à ANTEAG, ao MST, assessoradas pela Agência de Desenvolvimento Solidária, pela Cáritas, por incubadoras universitárias de cooperativas, etc. Dezenas de milhares de postos de trabalho foram, assim, preservados ou criados.
A economia solidária está sendo reinventada não só em nosso país, mas em muitos outros, igualmente atingidos por desemprego em massa e de longa duração, que se transforma em exclusão social. Mas é possível que, neste momento, seja no Brasil que a economia solidária tenha atingido dimensões mais amplas e logrado mais apoio por parte de igrejas, sindicatos, governos municipais e estaduais. É, com certeza, uma invenção brasileira a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares, hoje presente em quase uma vintena de grandes universidades. O envolvimento do ensino superior e da ciência com economia a solidária permite esperar que, em breve, ela deixe de ser apenas uma alternativa ao desemprego e à pobreza para se tornar uma modalidade empresarial tão normal como a pequena e média empresa privada e o grande capital.
A economia solidária foi debatida com seriedade e conhecimento de causa por centenas de pessoas, que compareceram às duas oficinas realizadas durante o FSM. Inclusive pelo Secretário da Economia Solidária (com status de ministro) do governo francês, que tomou parte na primeira oficina. Com a presença de delgados de muitos países, os debates permitiram avaliar a economia solidária no mundo e organizar o intercâmbio internacional de valores e conhecimento. Após a oficina de que participei, foi lançada a Rede Global da Sócio Economia Solidária que abrange entidades no Brasil e em outros países da América do Sul e da Europa.
Tudo leva crer que algo semelhante se passou em muitas outras oficinas realizadas durante o FSM, cujo total chegou a 400. A agenda dos críticos do capitalismo é surpreendentemente ampla e diversificada, em função da multiplicidade de grupos sociais vitimados por ele. A cobertura da imprensa deu muito destaque a fatos e feitos insólitos ou sensacionais. Mas o que tornou o Fórum um marco na história da esquerda mundial foi este imenso balanço das experiências econômicas, sociais e políticas, a partir do qual, começa a se vislumbrar que "um mundo melhor é possível". Isso aconteceu com a economia solidária, mas certamente também com a reforma agrária, a luta pela democracia participativa, pela preservação dos recursos naturais, contra a especulação financeira causadora de crises, contra discriminações étnicas, de gênero, etc.
O FSM foi importante também como experiência conscientizadora, pois tornou evidente para todos que lá estiveram que o movimento mundial por um mundo melhor é muito mais amplo e vigoroso do que até mesmo os mais otimistas sonhavam. E que novos foros mundiais serão convocados para dar continuidade ao que começou em Porto Alegre com tanta felicidade.
Paul Singer, economista, ex-secretário municipal do Planejamento de São Paulo, professor titular da FEA-USP, escreve quinzenalmente as segundas-feiras. E-mail: singerpi@usp.br
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